sábado, 6 de julho de 2019

Dor + Ação = Doação!

Priscila Mendonça Moura



     Anestesiada pelas atribuições cotidianas da minha vida tão difícil e cansativa, a qual devo suportar, sobreviver...será? Sou mulher, nordestina, professora, amiga, filha, irmã, tia, esposa, mãe... quanto sacrifício... Quantos papéis! Como sofro! Será?
     Ontem no turbilhão cotidiano do mais do mesmo, levantei o olhar, guardei o smartphone (vida virtual, vício urbano) e olhei ao redor. Embebida no tédio do trajeto diário... me intriguei: vi uma mulher com duas crianças, estava agachada com um bebê nos braços, dava algo em sua boca, um doce para distrair a fome. Já passava da hora do almoço, eu também estava faminta. Era um bebê robusto com 6 meses... talvez 7. Carregava muitas sacolas e um grande recipiente plástico com alça e tampa, daqueles de margarina do atacado, o qual comportava várias outras sacolinhas...será que era tudo o que possuía? Não sei precisar...
     Continuei a observar e comecei a enxergar. Olhei novamente para o bebê: estava quase despido, apenas com uma cueca, os pezinhos descalços apoiados no chão sujo do terminal de ônibus no centro de Aracaju. Tomei um susto: Como ela pôde fazer isso?! E continuei a enxergar...vi uma menininha ruiva com seu grande laçarote enfeitando os cabelos, seu belo rostinho cheio de sardas. Pensei: "Quando crescer será tão linda quanto a atriz Marina Rui Barbosa!". Em suas mãos havia um pequeno pacote com amendoins confeitados e coloridos, observei sua roupa folgada e os pequeninos pés descalços no chão encardido. Deve ter 3 ou 4 anos...a idade da minha filha! E se fosse a minha filha??? Pensei na grande quantidade de calçados e roupas separadas e acumuladas para doação em casa...tive a intenção não a ação...isso não vale nada! Aquela garotinha ainda está descalça e ao menos isso eu poderia resolver, mas ainda estou paralisada, lágrimas brotam dos meus olhos. E ainda...paralisada! Hoje eu senti a dor do mundo... meu ônibus chegou e com ele levo a dor e a culpa da minha falta de (do)ação.

4 comentários:

  1. Lindo texto! Amei! Já senti essa dor e ela me incomodava pois a ação me faltava, então agora eu já me antecipo. Separo várias coisas como cobertores, roupas, até mesmo pratos e talheres que não me servem mais, mas que podem servir para alguém e faço doações. Promovo a desacumulação e ainda ajudo alguém.

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  2. Bela narrativa!

    Confesso que gosto das crônicas urbanas, pois elas revelam uma radiografia social a partir do olhar e sentimentos do narrador, mesmo que, vez por outra, o leitor possua sentimentos distintos e outros leiam sem abrir mão da razão, o que não é o meu caso. Por conseguinte, a leitura da textura social é válida para fomentar a ação nas/das pessoas.

    Seu realismo não se assemelha ao de Aloísio Azevedo, em sua obra célebre, O cortiço, pois nesse texto o autor explora na narrativa sofrível de Bertoleza uma espécie de darwinismo social, o mais forte sobrevive sem remorso da dor imposta ao outro [matéria plástica] no caso do autor, o adaptável é João Romão, um ser social insensível, que contraria a temática romântica e neoclássica da época.

    Creio que você envereda por uma escrita realista/sentimental mais próxima de outros crônicas brasileiros, a saber, Nelson Rodrigues, Rubem Braga, Clarisse Lispector, Fernando Sabino...

    Espero continuar tendo o prazer de ler mais crônicas.

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    1. Caro amigo poeta,
      Que honra tê-lo como leitor e receber um comentário. Sei que é um escritor experiente, mas eu estou me aventurando agora. Costumo dizer aos alunos que o gênero crônica é um dos mais difíceis de se produzir, já que é preciso unir fato e literatura, olhar a realidade de maneira poética. Nem sempre há beleza na realidade e em nós mesmos... mas uma das funções da literatura é nos fazer refletir e dar leveza ao peso do cotidiano. Foi o meu intento...na minha bagagem trago o mestre Fernando Sabino, a grande Clarice Lispector e todos que passaram por minha trajetória...

      Gratidão por seu incentivo, também espero que o impulso para a escrita não esmoreça. Seja bem-vindo!

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