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terça-feira, 7 de junho de 2022

A outra margem

Priscila Mendonça Moura


A outra margem

Já me falaram sobre a outra margem...
Acreditei...
Desacreditei...
Enfim, a epifania:
É real!

Mas, para ir de um lado ao outro...
É preciso perder,
É preciso abrir mão,
É preciso se amar,
É preciso invadir trevas.

Sair da zona de conforto
Vai com temor mesmo!
Dar o primeiro passo...
"Para onde José?
Para onde?"

Eu sigo rumo à outra margem...
Atravessando a ponte...
O abismo me olha bem de perto
Eu o olho de volta...

Penso em todos os rótulos
Que recebemos em nossa trajetória...
Em todos os "eus" que se apresentam:
Nos que se vão...
Ou se mudam...
Ou se perdem com o Tempo...
O grande Senhor,
The big joker,
Passado, presente, futuro...
O eterno agora... é só o que temos.

Não há mais cortinas, nem véus
Só sobraram retalhos...
Dos mais diversos rótulos

Na travessia da ponte
Olho o horizonte
E vejo alguém
Do outro lado da margem

Uma estranha conhecida
De quem me perdi há algum tempo
Não havia alteridade
Apenas eu mesma
E resolvi ir ao meu encontro...
Outra margem... já estou a caminho!

terça-feira, 5 de maio de 2020

Mal do século

"From the very birth of a new awareness to the maturation of our selected reality our self-awareness is fragile, yet so empowering."


Aracaju-SE, 05 de maio de 2020.


    É madrugada, por volta de 1h30... estou aterrada com a sequência de coincidências... "coincidências"? Creio que não. Vamos aos fatos... ontem (04/05/2020) deparei com uma notícia assombrosa: o ator Flávio Migliaccio aos 85 anos cometeu suicídio. Dizem que supostamente deixou uma carta em que conclui: "Me desculpem, mas não deu mais. A velhice neste país é o caos, como tudo aqui. A humanidade não deu certo. Eu tive a impressão que foram 85 anos jogados fora… Num país como este. E com esse tipo de gente que acabei encontrando. Cuidem das crianças de hoje”. 
    Fiquei chocada, como sempre... tal tema me incomoda bastante. Estamos em tempos de pandemia, distanciamento social... ando insone desde o princípio dessa distopia, é cíclico: a mente não para... penso... penso... penso. Viro pro lado, tento relaxar. Nada do sono vir, viro novamente e alcanço o celular na cabeceira. A internet é minha companhia, estou a par de toda a loucura e insanidade do nosso mundo. É a minha atual realidade. É meia-noite do dia 5 de maio, sinto-me sonolenta e pensei que Morfeu tomaria-me nos braços mais cedo... finalmente! Antes de dormir, decido dar uma última olhada no feed, deparo com uma indicação do Prof. Christian Dunker para a matéria de Eliane Brum do El País acerca do aumento avassalador de suicídios de adolescentes em Altamira. Novamente o tema... clico no link. A matéria é chocante. Reflito sobre todas as reflexões que já tive sobre esse tema, sobre a necessidade de fazermos algo urgentemente para afastar esse perigo nefasto de nossa juventude. Reflito sobre diálogos que tive com uma grande amiga psicóloga e seus estudos sobre a morte. Nosso primeiro contato com o tema do suicídio foi na adolescência, na escola, no último ano do ensino fundamental, um colega da turma vizinha, sempre calado, ensimesmado, distante... certo dia avisou aos mais próximos que tiraria a própria vida. Os colegas acharam graça. Ele concretizou seu nefasto intento aos 15 anos. Foi como um soco no estômago de todos nós... não éramos próximas ao garoto, mas fomos prestar nossa solidariedade. Assustou-me alguns colegas comemorarem a suspensão das aulas: falta de empatia e maturidade. Senti nojo. 
    Outros casos, infelizmente, sucederam-se: a esposa de um tio, o vizinho, o colega de trabalho... e a gente se indaga: dá para perceber que a pessoa está sofrendo? Poderia ter feito algo? O que eu poderia ter dito? São questões sem resposta. Há também as especulações corriqueiras dos nossos tempos: "foi fraco" ou "isso é falta de Deus". Julgamentos... como tantos outros que contribuem para tristes e irreversíveis desfechos. 
    Sempre que ocorrem fatos dessa natureza, converso com minha amiga. Certa vez comentei sobre como o suicídio é abordado na literatura, fiquei pensando sobre isso... Como já adiantei, eu penso demais e acabo pesquisando sobre. Enfim, sou professora de Língua Portuguesa no Ensino Médio e há pouco tempo pesquisava material para a aula de literatura acerca do Romantismo. Relembrei a primeira obra romântica: "Os sofrimentos do jovem Werther" do escritor alemão Goethe, a qual atribuíram ser a causadora do aumento de suicídios na época do seu lançamento. Por tal motivo, acreditou-se que falar sobre o suicídio estimularia mais casos. E, portanto, falar nesse tema virou tabu. Hoje, casos de suicídio e automutilação crescem entre os jovens. Tornou-se caso de saúde pública, especialistas defendem que é preciso falar sobre. Ouvir. Escutar. Não li o livro supracitado, mas como pesquiso sobre o tema... estou na intenção de lê-lo. Os fatos recentes me fizeram buscar a obra, baixei uma amostra no Kindle

Da autora

    
    No primeiro capítulo há uma data: 04 de maio de 1771. Nossa! Há poucas horas... completou-se quase 250 anos desse relato. Coincidência??? A matéria de Eliane Brum termina com um questionamento registrado em carta por uma vítima: “Eu já estarei morto. Mas antes quero perguntar a vocês, adultos: o que farão para que outros adolescentes como eu não se suicidem?”. Sinceramente, não sei... só sei que é um tema que precisa ser discutido. Sou educadora e sinto que é urgente o desenvolvimento da escuta pedagógica. Tema para meus pensamentos e pesquisas. São 3h da madrugada. Morfeu não veio novamente. Por hora tentarei dormir. 
    Outra notificação, um youtuber bem conhecido posta um vídeo sobre o tema em questão e logo em seguida o remove da plataforma. Isso me angustia e faço uma prece, por ele, por Flávio e por todos nós. Sinto que preciso dizer algo a quem aí do outro lado não chegou a esse tema por mera coincidência... então lá vai!
    
    "Oi... se chegou até aqui, o que posso lhe dizer é que tenha paciência, tudo e todas as coisas são ilusórias, decerto passageiras. Ninguém poderá supor as dores que carrega... só você sabe a imensidão da sua escuridão. Se puder, se afaste um pouco dela, tente olhar de fora como um espectador ou mude o foco, se não pode ser sol com sua luz própria, seja lua e reflita luz em quem também necessita. Só peço que espere, respire, reflita, escreva sobre o que dói, fale com alguém em quem confie... fale... desabafe... ponha pra fora o que intoxica sua alma. E se tem fé ou se não há em quem confiar... pense que há uma força superior no Universo que originou tudo e todas as coisas, uns chamam de Deus, não importa! Abra seu coração, reze, ore, louve ou apenas externe como num diálogo as agruras do seu coração. Sinto muito que esteja passando por isso.  Me perdoe por não fazer ideia do quão imensa é sua dor!  Obrigada por ter recebido o que tenho a compartilhar! Busque ajuda! Toda essa dor é fonte do desamor. Não seja tão duro consigo mesmo, tenha compaixão por si, sei que há amor em você. Não desista! Eu te amo!"

    O sol já raiou... lembro a canção "Juízo Final" de Nelson Cavaquinho:

    "O sol há de brilhar mais uma vez
     A luz há de chegar aos corações
     O mal será queimada a semente
     O amor será eterno novamente
     
     [...]
     Quero ter olhos pra ver
     A maldade desaparecer."
    
    Por enquanto, essa é a nossa certeza... que após a noite escura, o sol surgirá no horizonte: uma redentora impermanência.


Priscila Mendonça Moura

 


* Precisa de auxílio ou quer ajudar alguém?


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Telefone: 188
E-mail: atendimento@cvv.org.br

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quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

Sobre amor e astronomia

Priscila Mendonça Moura

Anime Your name (2016)

Ei, amigo!
Quero lhe contar do amor que tive
Ou melhor, não tive...
Tive, mas não tive...

Será que tive?
Será que me quis?
Tão bem que se quis?
Não sei...

Só sei que de algum modo
Senti que era recíproco
Mas, simplesmente, não se realizou...

Viveu no plano das ideias
Sobreviveu
Ou melhor... "sobviveu"

Escondido
Oculto
Adormecido

Entre nós
Sempre uma atmosfera difusa
Sentimento em coma
Com uma calda que se arrasta

Enfim, fomos tal qual cometas
Que não colidiram
Por milésimos...
Fim da história.

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

A cara do preconceito

Priscila Mendonça Moura









Aos oito anos
Olhei bem de perto
A cara do preconceito
Década de 90
Em Divina Pastora
Interior de Sergipe
Brincadeira de criança
1, 2, 3... estátua!

Animados
Misturados
Miscigenados

No ludo, era especialista
Em ficar paralisada
Joguinho inocente?
Qual nada!
Logo a visitante
Da família do prefeito
Mostrou em sua ação 
O que é o preconceito.

Menina, branca, abastada
Injuriada por não vencer
Pôs-se em frente
À menina, preta, pobre
E como não conseguia
Fazê-la se mover
Bradou:
Negrinha!

Não sabíamos o porquê
Mas, descobrimos
Naquele momento
Que palavras podem doer
Isso feriu o coração
Da pobre menina
Lágrimas em profusão
Acabou a diversão!

Choro
Fuga
Revolta!

Aquilo doeu tanto em mim
Mas, na vida, não me omiti
Encarei
Dedo em riste
Gritei:
Tenha respeito!
Ela é minha amiga!
O que fez não é direito!

A perversa agressora
Também era uma criança...
E hoje me pergunto:
De onde vem o preconceito?
É uma chaga profunda
Arraigada na cultura
De uma sociedade
Erguida no desrespeito.

Se olharmos bem pra dentro
No fundo de nós
Encontraremos algum vestígio
Que nos foi ensinado
Por algum antepassado
Marcado em nossa alma
Que o diferente é errado
Que deve ser julgado...

É quando se diz:
"Moreninho"
Inveja "branca"
"A coisa tá preta"
"Denegrir"
Cabelo "bom"
Tem "neguinho" que...
Verbalizamos sem perceber

E também questionamos
Que o realmente necessário
É a Consciência Humana...
Meu caro leitor,
Que fique bem claro
Nesse mundo revirado
Todo respeito
Necessita ser reivindicado!

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

A outra margem e outras estórias

Priscila Mendonça Moura
















Já me falaram sobre a outra margem
Até acreditei...
Tudo não passa de uma viagem
Que teimamos fantasiar.

Não há outra margem
Nem sei se algum dia existiu
Quando se olha ao longe
Só se vê a linha do horizonte.

Também dizem que lá
É possível sonhar
Já chega!
Hora de acordar.

Valorize o que se tem
Seja grato
Pois, tudo que lhe é devido
Um dia sempre vem.

Sonhar é importante
Livra-nos da escuridão
Mas, é mister discernimento
Para não viver na ilusão.

Ficar à margem
É ver a vida passar
Esperando por um sonho
Que não vai se realizar.

sábado, 6 de julho de 2019

Dor + Ação = Doação!

Priscila Mendonça Moura



     Anestesiada pelas atribuições cotidianas da minha vida tão difícil e cansativa, a qual devo suportar, sobreviver...será? Sou mulher, nordestina, professora, amiga, filha, irmã, tia, esposa, mãe... quanto sacrifício... Quantos papéis! Como sofro! Será?
     Ontem no turbilhão cotidiano do mais do mesmo, levantei o olhar, guardei o smartphone (vida virtual, vício urbano) e olhei ao redor. Embebida no tédio do trajeto diário... me intriguei: vi uma mulher com duas crianças, estava agachada com um bebê nos braços, dava algo em sua boca, um doce para distrair a fome. Já passava da hora do almoço, eu também estava faminta. Era um bebê robusto com 6 meses... talvez 7. Carregava muitas sacolas e um grande recipiente plástico com alça e tampa, daqueles de margarina do atacado, o qual comportava várias outras sacolinhas...será que era tudo o que possuía? Não sei precisar...
     Continuei a observar e comecei a enxergar. Olhei novamente para o bebê: estava quase despido, apenas com uma cueca, os pezinhos descalços apoiados no chão sujo do terminal de ônibus no centro de Aracaju. Tomei um susto: Como ela pôde fazer isso?! E continuei a enxergar...vi uma menininha ruiva com seu grande laçarote enfeitando os cabelos, seu belo rostinho cheio de sardas. Pensei: "Quando crescer será tão linda quanto a atriz Marina Rui Barbosa!". Em suas mãos havia um pequeno pacote com amendoins confeitados e coloridos, observei sua roupa folgada e os pequeninos pés descalços no chão encardido. Deve ter 3 ou 4 anos...a idade da minha filha! E se fosse a minha filha??? Pensei na grande quantidade de calçados e roupas separadas e acumuladas para doação em casa...tive a intenção não a ação...isso não vale nada! Aquela garotinha ainda está descalça e ao menos isso eu poderia resolver, mas ainda estou paralisada, lágrimas brotam dos meus olhos. E ainda...paralisada! Hoje eu senti a dor do mundo... meu ônibus chegou e com ele levo a dor e a culpa da minha falta de (do)ação.

domingo, 16 de junho de 2019

Suassuna: o velho contador de histórias


Ariano Suassuna
Na Paraíba nasceu
Aos três anos de idade
Uma tragédia viveu
Seu pai é assassinado
Mas não queria ser vingado
O garoto obedeceu.


Então, a mãe do Ariano
Viúva jovem ficou
Exemplo, mulher guerreira
Os nove filhos criou
Dos filhos...o oitavo irmão
Sempre teve gratidão
Pelo modo que os educou.

Com uns quinze anos de idade
Para Recife se mudou
"Uma mulher vestida de sol"
Primeira peça que lançou
Criou também "O santo e a porca"
O tema do sertão enfoca
Sucesso por onde passou.

Auto da Compadecida
Conquistou o mundo inteiro
Ainda hoje aclamada
No cinema brasileiro.
"O casamento suspeitoso"
É outro texto jocoso.
Tinha aversão ao estrangeiro.

Seu material de trabalho
Era a Língua Portuguesa
A Pedra do Reino mostra
Que grandiosa esperteza
Nem só peças escrevia
Criou romance e poesia
Homem de muita proeza.

Dramaturgo, advogado
Depois, virou professor
Em suas aulas-espetáculo
Contou histórias com humor
Tinha grande habilidade
Natural comicidade
Filósofo se tornou.

Amor pro resto da vida
Apaixonou-se por Zélia
E tiveram seis filhos:
Joaquim, depois Maria,
Mariana, Manuel,
Teve Ana Rita e Isabel
Construiu grande família.