terça-feira, 5 de maio de 2020

Mal do século

"From the very birth of a new awareness to the maturation of our selected reality our self-awareness is fragile, yet so empowering."


Aracaju-SE, 05 de maio de 2020.


    É madrugada, por volta de 1h30... estou aterrada com a sequência de coincidências... "coincidências"? Creio que não. Vamos aos fatos... ontem (04/05/2020) deparei com uma notícia assombrosa: o ator Flávio Migliaccio aos 85 anos cometeu suicídio. Dizem que supostamente deixou uma carta em que conclui: "Me desculpem, mas não deu mais. A velhice neste país é o caos, como tudo aqui. A humanidade não deu certo. Eu tive a impressão que foram 85 anos jogados fora… Num país como este. E com esse tipo de gente que acabei encontrando. Cuidem das crianças de hoje”. 
    Fiquei chocada, como sempre... tal tema me incomoda bastante. Estamos em tempos de pandemia, distanciamento social... ando insone desde o princípio dessa distopia, é cíclico: a mente não para... penso... penso... penso. Viro pro lado, tento relaxar. Nada do sono vir, viro novamente e alcanço o celular na cabeceira. A internet é minha companhia, estou a par de toda a loucura e insanidade do nosso mundo. É a minha atual realidade. É meia-noite do dia 5 de maio, sinto-me sonolenta e pensei que Morfeu tomaria-me nos braços mais cedo... finalmente! Antes de dormir, decido dar uma última olhada no feed, deparo com uma indicação do Prof. Christian Dunker para a matéria de Eliane Brum do El País acerca do aumento avassalador de suicídios de adolescentes em Altamira. Novamente o tema... clico no link. A matéria é chocante. Reflito sobre todas as reflexões que já tive sobre esse tema, sobre a necessidade de fazermos algo urgentemente para afastar esse perigo nefasto de nossa juventude. Reflito sobre diálogos que tive com uma grande amiga psicóloga e seus estudos sobre a morte. Nosso primeiro contato com o tema do suicídio foi na adolescência, na escola, no último ano do ensino fundamental, um colega da turma vizinha, sempre calado, ensimesmado, distante... certo dia avisou aos mais próximos que tiraria a própria vida. Os colegas acharam graça. Ele concretizou seu nefasto intento aos 15 anos. Foi como um soco no estômago de todos nós... não éramos próximas ao garoto, mas fomos prestar nossa solidariedade. Assustou-me alguns colegas comemorarem a suspensão das aulas: falta de empatia e maturidade. Senti nojo. 
    Outros casos, infelizmente, sucederam-se: a esposa de um tio, o vizinho, o colega de trabalho... e a gente se indaga: dá para perceber que a pessoa está sofrendo? Poderia ter feito algo? O que eu poderia ter dito? São questões sem resposta. Há também as especulações corriqueiras dos nossos tempos: "foi fraco" ou "isso é falta de Deus". Julgamentos... como tantos outros que contribuem para tristes e irreversíveis desfechos. 
    Sempre que ocorrem fatos dessa natureza, converso com minha amiga. Certa vez comentei sobre como o suicídio é abordado na literatura, fiquei pensando sobre isso... Como já adiantei, eu penso demais e acabo pesquisando sobre. Enfim, sou professora de Língua Portuguesa no Ensino Médio e há pouco tempo pesquisava material para a aula de literatura acerca do Romantismo. Relembrei a primeira obra romântica: "Os sofrimentos do jovem Werther" do escritor alemão Goethe, a qual atribuíram ser a causadora do aumento de suicídios na época do seu lançamento. Por tal motivo, acreditou-se que falar sobre o suicídio estimularia mais casos. E, portanto, falar nesse tema virou tabu. Hoje, casos de suicídio e automutilação crescem entre os jovens. Tornou-se caso de saúde pública, especialistas defendem que é preciso falar sobre. Ouvir. Escutar. Não li o livro supracitado, mas como pesquiso sobre o tema... estou na intenção de lê-lo. Os fatos recentes me fizeram buscar a obra, baixei uma amostra no Kindle

Da autora

    
    No primeiro capítulo há uma data: 04 de maio de 1771. Nossa! Há poucas horas... completou-se quase 250 anos desse relato. Coincidência??? A matéria de Eliane Brum termina com um questionamento registrado em carta por uma vítima: “Eu já estarei morto. Mas antes quero perguntar a vocês, adultos: o que farão para que outros adolescentes como eu não se suicidem?”. Sinceramente, não sei... só sei que é um tema que precisa ser discutido. Sou educadora e sinto que é urgente o desenvolvimento da escuta pedagógica. Tema para meus pensamentos e pesquisas. São 3h da madrugada. Morfeu não veio novamente. Por hora tentarei dormir. 
    Outra notificação, um youtuber bem conhecido posta um vídeo sobre o tema em questão e logo em seguida o remove da plataforma. Isso me angustia e faço uma prece, por ele, por Flávio e por todos nós. Sinto que preciso dizer algo a quem aí do outro lado não chegou a esse tema por mera coincidência... então lá vai!
    
    "Oi... se chegou até aqui, o que posso lhe dizer é que tenha paciência, tudo e todas as coisas são ilusórias, decerto passageiras. Ninguém poderá supor as dores que carrega... só você sabe a imensidão da sua escuridão. Se puder, se afaste um pouco dela, tente olhar de fora como um espectador ou mude o foco, se não pode ser sol com sua luz própria, seja lua e reflita luz em quem também necessita. Só peço que espere, respire, reflita, escreva sobre o que dói, fale com alguém em quem confie... fale... desabafe... ponha pra fora o que intoxica sua alma. E se tem fé ou se não há em quem confiar... pense que há uma força superior no Universo que originou tudo e todas as coisas, uns chamam de Deus, não importa! Abra seu coração, reze, ore, louve ou apenas externe como num diálogo as agruras do seu coração. Sinto muito que esteja passando por isso.  Me perdoe por não fazer ideia do quão imensa é sua dor!  Obrigada por ter recebido o que tenho a compartilhar! Busque ajuda! Toda essa dor é fonte do desamor. Não seja tão duro consigo mesmo, tenha compaixão por si, sei que há amor em você. Não desista! Eu te amo!"

    O sol já raiou... lembro a canção "Juízo Final" de Nelson Cavaquinho:

    "O sol há de brilhar mais uma vez
     A luz há de chegar aos corações
     O mal será queimada a semente
     O amor será eterno novamente
     
     [...]
     Quero ter olhos pra ver
     A maldade desaparecer."
    
    Por enquanto, essa é a nossa certeza... que após a noite escura, o sol surgirá no horizonte: uma redentora impermanência.


Priscila Mendonça Moura

 


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quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

Sobre amor e astronomia

Priscila Mendonça Moura

Anime Your name (2016)

Ei, amigo!
Quero lhe contar do amor que tive
Ou melhor, não tive...
Tive, mas não tive...

Será que tive?
Será que me quis?
Tão bem que se quis?
Não sei...

Só sei que de algum modo
Senti que era recíproco
Mas, simplesmente, não se realizou...

Viveu no plano das ideias
Sobreviveu
Ou melhor... "sobviveu"

Escondido
Oculto
Adormecido

Entre nós
Sempre uma atmosfera difusa
Sentimento em coma
Com uma calda que se arrasta

Enfim, fomos tal qual cometas
Que não colidiram
Por milésimos...
Fim da história.