Priscila Mendonça Moura
Anestesiada pelas atribuições cotidianas da minha vida tão difícil e cansativa, a qual devo suportar, sobreviver...será? Sou mulher, nordestina, professora, amiga, filha, irmã, tia, esposa, mãe... quanto sacrifício... Quantos papéis! Como sofro! Será?
Ontem no turbilhão cotidiano do mais do mesmo, levantei o olhar, guardei o smartphone (vida virtual, vício urbano) e olhei ao redor. Embebida no tédio do trajeto diário... me intriguei: vi uma mulher com duas crianças, estava agachada com um bebê nos braços, dava algo em sua boca, um doce para distrair a fome. Já passava da hora do almoço, eu também estava faminta. Era um bebê robusto com 6 meses... talvez 7. Carregava muitas sacolas e um grande recipiente plástico com alça e tampa, daqueles de margarina do atacado, o qual comportava várias outras sacolinhas...será que era tudo o que possuía? Não sei precisar...
Continuei a observar e comecei a enxergar. Olhei novamente para o bebê: estava quase despido, apenas com uma cueca, os pezinhos descalços apoiados no chão sujo do terminal de ônibus no centro de Aracaju. Tomei um susto: Como ela pôde fazer isso?! E continuei a enxergar...vi uma menininha ruiva com seu grande laçarote enfeitando os cabelos, seu belo rostinho cheio de sardas. Pensei: "Quando crescer será tão linda quanto a atriz Marina Rui Barbosa!". Em suas mãos havia um pequeno pacote com amendoins confeitados e coloridos, observei sua roupa folgada e os pequeninos pés descalços no chão encardido. Deve ter 3 ou 4 anos...a idade da minha filha! E se fosse a minha filha??? Pensei na grande quantidade de calçados e roupas separadas e acumuladas para doação em casa...tive a intenção não a ação...isso não vale nada! Aquela garotinha ainda está descalça e ao menos isso eu poderia resolver, mas ainda estou paralisada, lágrimas brotam dos meus olhos. E ainda...paralisada! Hoje eu senti a dor do mundo... meu ônibus chegou e com ele levo a dor e a culpa da minha falta de (do)ação.
